domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um feitiço por dia

Um feitiço por dia,
É o que preciso pra me manter aquecida.
Um feitiço por dia,
E a vida sorri para mim novamente.
Vamos lá! não se perde o dom assim tão fácilmente,
Sorria, ergua sua varinha e deixe a magia fluir!
Junte seu caldeirão, vassoura e amuletos,
Dê adeus a tudo que te desconecta da essência...
E enfim, parta... deixe para trás o que passou...
Feche os olhos e deixe a dor escorrer...
E então, erga sua varinha...
Porque só preciso de um feitiço por dia pra me manter aquecida...
Um feitiço por dia,
É tudo o que eu preciso...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tamanho Exato

E aquele abraço? Oh! aquele abraço,
Tinha o tamanho exato.
Tornou-se cada vez mais complicado
Não ter-me em seus braços
Tornou-se cada vez mais difícil
Não perder-me em seu rosto.
Vou assim, acompanhando seus traços,
Tão bem delineados... sempre expressivos e acentuados.
Mas por baixo das fortes linhas, sempre o cansaço...
Sempre uma fragilidade...
Sempre algo confuso, mal resolvido,
Sempre distante dos meus laços...
  Mas o seu abraço... seu abraço tinha o tamanho exato...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Rabisco

Nem tudo deve ser dito. Debatido, explicado.
Em momentos sutis, gestos podem ser sutis, devem ser sutis.
Existem momentos, em que o comentário destrói toda a ação.
É fazer, não é falar.
No fim... ter a razão não significa necessariamente que os outros tenham que saber dissso.

Ainda estou aprendendo... por vezes tropeço, mas a prática me fará boa nisso.

-_-'

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lavar a alma


Eu quero mais é que chova
Eu quero mais é que você se foda
Eu quero mesmo é que você me atraia, me traia
Eu quero mais é que você caia.

Fotografia

O carro parou no fim da rua, sob a luz de um poste qualquer. As mãos apertaram o volante tentando amenizar a tensão.


Quanto tempo mais isso poderia durar? Um mês? Mais? Difícil dizer. Jogou a cabeça pra trás e bateu no encosto do banco com um barulho surdo. Respirou fundo e antes de deixar o ar sair, soltou o cinto e pulou pra fora do carro. Era sempre assim, toda vez que se aproximava dali era como se preparar para tomar um injeção, não é tão dolorido e tão pouco agradável.



Como sempre o portão estava encostado apenas. Passou por ele sem pensar e seguiu até a porta de cedro pesada. E ali, exitou. A mão esquerda congelada sobre a maçaneta e a direita apertando a alça da bolça junto ao quadril.



Ouviu um barulho do lado de dentro e cerrou os olhos tentando encontrar a coragem antes de que a visse. Puxou o ar novamente e apertou a mandíbula. Abriu os olhos, a maçaneta deslizava sob sua mão, então o sorriso malicioso em seu rosto foi estampado automaticamente.



“Aconteceu algo? Ouvi o carro, mas você não entrava, achei que...” - ele olhou por cima dos ombros magros da garota parada a sua frente, tentando achar o motivo do retardo.



“Não, achei que tinha esquecido o celular no carro, estava apenas conferindo.” - Levantou a bolsa num gesto frágil.

Os olhos de ambos transpiravam cumplicidade. Ela passou por ele com um andar quase suspenso. Sabia que quando entrasse, o rastro de seu perfume o faria segui-la. Jogou a bolsa no aparador e deixou escorregar o casaco por seus braços. Deixou-o junto a bolsa e se virou.

Pensou que o olhar dele sempre tinha um quê de fotografia... sempre procurando um ângulo perfeito, sempre registrando os jogos de cores e luzes. Já os olhos dela procuravam nos dele algo além de desejo.

Riu alto com seu pensamento, um misto de divertimento e prazer, e foi para a sala de TV. Era difícil não olhar pra ele, mas era mais difícil olhar e ver que tudo não passava de um cenário, e ela de uma modelo venerada. Não, ela não era uma modelo e era por isso que ele amava fotografá-la, era natural.

Quando acordava, a luz da manhã lhe concedia uma beleza extraordinariamente singela.

Sem interpretar ela era introspectiva, era sensual, era feliz... e segundo ele, as lentes gostavam dela, nunca eram desonestas... sempre retratavam-na com devota sinceridade.



Os dedos leves deslizaram sobre o aparelho de som e a música triste começou a se desenrolar no tenor italiano que tanto amava. Não sabia que ele também gostava de ópera.

Ora não sabia muito a respeito dele.

Puxou o grampo do cabelo e o deixou a cascata de ébano cair sobre os ombros brancos e nus. As mãos pesadas invadiram sua pele e a fizeram olhar para cima em seus olhos.

Estava feito, a injeção doeria no dia seguinte, quando acordaria sozinha naquela cama enorme e fria.