O carro parou no fim da rua, sob a luz de um poste qualquer. As mãos apertaram o volante tentando amenizar a tensão.
Quanto tempo mais isso poderia durar? Um mês? Mais? Difícil dizer. Jogou a cabeça pra trás e bateu no encosto do banco com um barulho surdo. Respirou fundo e antes de deixar o ar sair, soltou o cinto e pulou pra fora do carro. Era sempre assim, toda vez que se aproximava dali era como se preparar para tomar um injeção, não é tão dolorido e tão pouco agradável.
Como sempre o portão estava encostado apenas. Passou por ele sem pensar e seguiu até a porta de cedro pesada. E ali, exitou. A mão esquerda congelada sobre a maçaneta e a direita apertando a alça da bolça junto ao quadril.
Ouviu um barulho do lado de dentro e cerrou os olhos tentando encontrar a coragem antes de que a visse. Puxou o ar novamente e apertou a mandíbula. Abriu os olhos, a maçaneta deslizava sob sua mão, então o sorriso malicioso em seu rosto foi estampado automaticamente.
“Aconteceu algo? Ouvi o carro, mas você não entrava, achei que...” - ele olhou por cima dos ombros magros da garota parada a sua frente, tentando achar o motivo do retardo.
“Não, achei que tinha esquecido o celular no carro, estava apenas conferindo.” - Levantou a bolsa num gesto frágil.
Os olhos de ambos transpiravam cumplicidade. Ela passou por ele com um andar quase suspenso. Sabia que quando entrasse, o rastro de seu perfume o faria segui-la. Jogou a bolsa no aparador e deixou escorregar o casaco por seus braços. Deixou-o junto a bolsa e se virou.
Pensou que o olhar dele sempre tinha um quê de fotografia... sempre procurando um ângulo perfeito, sempre registrando os jogos de cores e luzes. Já os olhos dela procuravam nos dele algo além de desejo.
Riu alto com seu pensamento, um misto de divertimento e prazer, e foi para a sala de TV. Era difícil não olhar pra ele, mas era mais difícil olhar e ver que tudo não passava de um cenário, e ela de uma modelo venerada. Não, ela não era uma modelo e era por isso que ele amava fotografá-la, era natural.
Quando acordava, a luz da manhã lhe concedia uma beleza extraordinariamente singela.
Sem interpretar ela era introspectiva, era sensual, era feliz... e segundo ele, as lentes gostavam dela, nunca eram desonestas... sempre retratavam-na com devota sinceridade.
Os dedos leves deslizaram sobre o aparelho de som e a música triste começou a se desenrolar no tenor italiano que tanto amava. Não sabia que ele também gostava de ópera.
Ora não sabia muito a respeito dele.
Puxou o grampo do cabelo e o deixou a cascata de ébano cair sobre os ombros brancos e nus. As mãos pesadas invadiram sua pele e a fizeram olhar para cima em seus olhos.
Estava feito, a injeção doeria no dia seguinte, quando acordaria sozinha naquela cama enorme e fria.